Chegamos em Luxor no final da tarde. Muito quente. O hotel não era uma maravilha mas era OK. Fomos procurar um supermercado para comprar água, chocolate essas coisas, e esse foi o primeiro "momento stress" da viagem.
Depois de comprar nossas coisas e ficarmos com a sensação de termos sido roubados (quase nada lá tem preço, eles supõem que você sabe qual o preço das coisas e barganhar por um preço mais baixo é regra, não exceção), fomos em direção ao Nilo. Aí começou o segundo momento stress. Você não consegue andar 10 metros sem ter alguém oferecendo taxi, passeio de felluca (pequeno barco pra velejar no Nilo), passeio de charrete, echarpes de algodão... qualquer coisa. E eles são insistentes! Quase agressivos, tentam te parar, insistem, perguntam quanto você quer pagar, baixam o preço que pediram antes. E quase nunca um simples "No, thanks" é suficiente. Você basicamente tem que sair andando e ignorar (e eles muitas vezes te seguem pela rua por um tempo). Depois de uns 10 minutos chegamos a margem leste do Nilo, e tivemos nossa recompensa.
Momento deslumbre: Estávamos andando ao longo do Nilo !
E esse foi o por-do-Sol que assistimos enquanto caminhávamos...


Jantamos num restaurante recomendado pelo Lonely Planet, e desmaiamos de cansaço. O dia seguinte seria cheio.
Segundo dia, 6 de abril, Luxor:
Acordamos cedo e começamos o dia passando numa agência de turismo ali perto, pra organizar as viagens que queríamos fora de Luxor, e em seguida pegamos a balsa pra atravessar para a margem oeste do Nilo.


Queríamos chegar ao Vale dos Reis, e foi incrivelmente estressante tentar irmos por conta própria, com dezenas de taxistas egípcios tentando nos convencer a fechar negócio com eles. Uma vez o Rodolfo, pra tentar despistar, respondeu que não queríamos taxi pois iríamos de bicicleta, e sem menos o egípcio tirou do bolso o cartão de "rent a bike" e nos ofereceu as biblicletas! Argh! E o livro dizia que os egípcios em geral eram muito amigáveis, a gente não entendia como!
Com algum stress chegamos ao
Vale dos Reis, onde vários faraós foram enterrados com seus tesouros (mas os tesouros foram levados para museus). Entramos em três das 62 tumbas (Tuthmosis III, Ramses I, Merneptah), que são bastante impressionantes apesar de um pouco claustrofóbicas. As paredes são inteiramente cobertas de hieroglifos, as vezes ainda coloridos, outras vezes em relevo... mas eles não permitem fotos. Então só posso oferecer a foto da montanha em forma de pirâmide sob a qual os túmulos foram escavados (Al-Qurn).

De lá fomos ver onde os Nobres (não mais os faraós) eram enterrados. Essas tumbas ficam espalhadas bem no meio de um vilarejo, muito pobre.

Vimos as tumbas de Menna, Nakht, Sennofer, Rekhmire, que em si não são tão impressionantes quanto as dos faraós, mas o legal é que as pinturas nas paredes são bem melhor preservadas. E lá pude tirar algumas fotos (dando uma gorjeta pro egípcio que fica cuidando, claro). Mas sem flash! Pra não danificar os desenhos :)).



E de lá terminamos nossa visita à Margem Ocidental visitando o Templo de
Ramesseum, um dos templos construídos por Ramsés II.

Olha só os detalhes, as vezes dá pra ver as cores originais...

ou as pichações deixadas por gregos e romanos antigos.

Ainda tinha muita coisa pra ver desse lado do Nilo, mas tivemos que fazer escolhas já que o tempo era curto. Então pegamos a balsa pra Margem Oriental novamente, e fomos até o impressionante complexo dos
Templos de Karnak.

Mais que um simples templo, Karnak cobre uma área de 1.5 km por 800m e contém santuários, quiosques, pilares e obeliscos dedicados aos deuses de Tebas e à glória dos faraós.

Momento deslumbre: Aqui sim, a gente ficou com muita cara de bobo! Cara de bobo, sabe? Olhos um tanto abertos demais, sorriso besta no rosto, sem falar nada... A gente sentou logo após a entrada, cansados do longo dia, mas totalmente deslumbrados com esse lugar. É simplesmente mágico! Nós andávamos pelas colunas e ficamos tentando imaginar esse lugar "com vida", com as cores originais e os antigos egípcios louvando, trabalhando, passeando...





Tinha até gente "Walking like an Egyptian", olha só...


Por fim andamos até o centro da cidade (a favela, lembram?) pra comprar as passagens de trem pro dia seguinte.
Terceiro dia, 7 de abril, Aswan:Terceiro dia acordamos cedo pra pegar o trem para Aswan.
Momento stress: O trem atrasou quase uma hora. E durante todo esse tempo eu não conseguia tirar os olhos da menininha cheia de moscas no rosto, que a mãe não se dava ao trabalho de limpar.
Com isso posso comentar de outra coisa desagradável do povo egípcio de hoje: noção praticamente inexistente de higiene. Jogam lixo na rua mais do que os brasileiros (o Rodolfo acha que tanto quanto nós brasileiros), crianças sujas (mães também sujas), poeira e moscas por todo lugar...
Umas três horas de trem e chegamos à Aswan, que é uma cidade muito mais agradável que Luxor. Ainda tem egípcio tentando te vender coisas, mas bem menos... Procuramos logo de cara o hotel recomendado pelo Lonely Planet. Não tínhamos reserva, mas deu tudo certo. E o hotel era muito melhor do que o de Luxor, com pessoas muito prestativas na recepção. Deu até pra descansar a beira da piscina por um tempo. Santo livro!


Saímos pra procurar uma agência de turismo pra comprar um pacote pra ir para Abu Simbel, ainda mais ao Sul, e sacar dinheiro. Mas estava tão quente, mas tão quente, que em menos de 10 minutos pedi pra voltarmos pro hotel e fecharmos o pacote de Abu Simbel oferecido pelo hotel (que era até um bom preço!) e sairíamos a noite pra sacar dinheiro.
Depois de fecharmos o pacote é que li no livro que eles recomendam fortemente NÃO comprar pacotes pra Abu Simbel em hotéis, pois geralmente te põem numa van super lotada, as vezes sem ar-condicionado (ops...). Além disso, quando saímos pra sacar dinheiro me toquei que nem eu nem o Rodolfo tínhamos a senha pra sacar dinheiro com o cartão de crédito (apesar dele insistir sempre que tudo é minha culpa!). É que estamos acostumados a sacar dinheiro com o cartão da conta corrente, em qualque país na Europa. Mas afinal, Egito não é Europa, né?
Enfim, fomos à noite ao Museu Núbio, onde aprendemos um pouco sobre esse povo negro que vive ao sul do Egito (muitas vezes envolvido em guerras com Egito Antigo, como aliados, inimigos, conquistados ou conquistadores).



Ao voltarmos pro hotel descobrimos que não poderíamos pagar o hotel com cartão de crédito. Pânico! Tive que escrever um email as pressas pro meu brodi André, em Munique, e pedir pra ele passar na minha casa pra pegar a senha do cartão de crédito. Estamos devendo uma pra ele agora (e o Rodolfo me enche o saco porque agora o André pode ficar zoando com a gente).
Quarto dia, 8 de abril, Abu Simbel, Aswan, Luxor:Acordamos nada menos do que as 3 da manha (!!!!) pra pegar a van pra Abu Simbel. E a #^%@$ do livro estava certo sobre a qualidade das vans organizadas por hotéis.
Momento deslumbre: Mas valeu a pena, porque os Templos de Abu Simbel são... Abu Simbel. :)



A uma da tarde estávamos de volta à Aswan, conseguimos pagar o hotel com umas notas de euro perdidas nas nossas carteiras, e passamos um par de horas almoçando num restaurante à margem do Nilo que é um charme!

O dia foi muito legal. Mas no fim da tarde tívemos um egípcio de jeito furtivo nos seguindo pelas ruas por um bom tempo até o despistarmos. Não sabemos o que era, mas nossos instintos de brasileiros nos diziam que coisa boa não era...
E voltamos de trem para Luxor. O esquisito é que fomos da estação de trem de Luxor até o hotel sem NINGUÉM nos oferecer nada, serviço ou produto (e são quase 15 minutos andando!). A gente não entendeu nada, achamos que tínhamos ido parar no lugar errado, que não era Luxor não...
Quinto dia, 9 de Abril: Deserto Ocidental, Oásis Al-Kharga.Fechamos um pacote com uma agência de turismo para passarmos um dia e meio no deserto. Um motorista nos levou até o maior oásis do Egito, Al-Kharga. Grande mesmo, nem se parece com a idéia de oásis que a gente imagina de filmes, é uma pequena cidade construída no meio do deserto. Chegando lá encontramos com nosso guia, o Mohamed, um cara falante que levou a esposa (ou noiva? não entendi direito) pra passar o dia com a gente. O nome dela é complicado, só me lembro que em árabe significa 'Sorriso'.

Eles nos levaram para ver a
Necrópole de Al-Bagawat, com várias capelas cristãs cópticas do século 3.


Era dia de festa (uma mistura peculiar da festa de Primavera da época dos faraós e os mesmos ovos pintados que temos na nossa festa de Páscoa), e eles nos levaram pra um almoço típico (come-se com as mãos). Os beduínos são bem mais amigáveis que os egípcios das cidades. Curiosos sobre nós, mas sem serem invasivos... O Mohamed nos levou para conhecer a família dele, que estava como que fazendo um picnic embaixo de palmeiras. Eles nos convidaram para chá, perguntaram de onde éramos, conversaram como puderam com nós (o inglês é bem ruim), as crianças nos circundaram e inventavam jeitos de se comunicar...
Momento stress: Eles foram muito legais, mas a higiene não é lá essas coisas, e o Mohamed nos ofereceu uns bolinhos de arroz que a mãe dele tinha feito. E como iríamos recusar ?!?! A gente pois aquilo na boca rezando pra não fazer mal...

Depois passeamos pelo maior vilarejo de Al-Kharga, e no fim do dia o Mohamed nos levou para o deserto. Eu estava ansiosa, mas não imaginava que o deserto pudesse ser tão magnífico! É muito difícil por em palavras, porque afinal é basicamente um monte de areia por todos os lados. Mas pensa, como explicar o que é o mar para alguém que nunca viu? O mar é 'apenas' um monte de água por todos os lados, não é?
Momento deslumbre: O deserto é uma imensidão de areia com nuances de cor e sombra que uma foto não consegue captar, ventos fortes e um horizonte sem fim que nos chama e atiça. E ainda tivemos o privilégio de assistir ao por-do-sol do alto de uma duna... Não sou poeta o suficiente pra explicar.



Depois do por-do-sol a 'Sorriso' nos deixou. Ao se despedir, ela disse que estava muito feliz de me conhecer, que queria me ver de novo, e que me amava. Não escrevi errado não, ela me disse "I love you" com todas as letras. Fiquei surpresa claro, mas também muito tocada...
Depois fomos passar a noite em um acampamento beduíno,

comemos frango feito na fogueira,

e dormimos numa tenda.


Meu Deus, que dia incrível.
Sexto dia, 10 de Abril: Deserto, de volta pra Luxor, trem para Cairo.Acordamos e o nosso guia beduíno (o das tendas) nos levou para conhecer a "fazenda" do oásis.
O Rodolfo ficou brincando de subir em árvore com o guia,

e comemos goiaba tirada do pé !

Encontramos com o Mohamed (o mesmo do dia anterior), que nos levou para ver um templo em meio ao deserto. E de estar mais uma vez no deserto senti novamente a sensação que chamo de "alimentar a alma", e mais uma vez senti lágrimas querendo vir à tona.
Depois de um almoço improvisado e chá beduíno, nos despedimos de Mohamed. Ele deu de presente para cada um de nós um vaso de cerâmica. No carro voltando pra Luxor, o Rodolfo vira pra mim e fala algo como "Puxa eles são legais né? Sabe, eu gosto deles...". Nós começamos a rir e a xingar muito! Não é que o livro estava certo de novo ?!?! Foi aí que começamos a chamar o Lonely Planet de "O Livro Sagrado".
Chegamos em Luxor a tempo de tirar algumas fotos noturnas no Templo de Luxor. Na entrada do Templo o Rodolfo teve um treco e começou a me sacudir pelos ombros, só porque eu estava dizendo (acho que pela terceira vez) que devíamos ter trazido o livro sagrado (tínhamos esquecido no hotel). Expliquei que estava tudo bem, que era brincadeira e ele acalmou. Eu evitei mencionar o livro de novo, sabe? Mas ele falou pelo menos mais um par de vezes que devíamos mesmo ter trazido o livro pra lermos sobre as diversas partes do templo.
É muito bonito visitar o templo a noite, tem um ar mágico, misterioso, tocante...

Tarde da noite pegamos o trem noturno para Cairo. São dez horas de viagem então compramos passagem na primeira classe. Só que a "primeira classe" no Egito não passa no controle de vigilância sanitária brasileiro não...
Sétimo dia, 11 de Abril: CairoChegamos de manhã ao Cairo e encontramos nosso guia. Cairo em si não me pareceu particularmente interessante, parece uma São Paulo piorada (Cairo tem 22 milhões de habitantes), digo, mais pobre e mais suja.
Fomos direto para o Museu Egípcio.

É um museu impressionante e LOTADO de gente. Entre outras preciosidades, eles tem todos os tesouros encontrados no túmulo de Tutankhamun. Pena que não podíamos tirar foto, bem que eu queria uma foto minha ao lado da máscara do faraó menino (que nem a foto do Sal "Eu e a Mona", pra quem sabe do que estou falando...). Você pode dar uma olhada nessa máscara em http://en.wikipedia.org/wiki/Tutankhamun.
Após um rápido almoço, fomos então, finalmente, ver as Pirâmides de Giza, uma das 7 maravilhas do mundo.


Queríamos entrar numa das pirâmides. Compramos o ingresso, mas eu travei na entrada do túnel. É muito claustrofóbico! Eu desisti, o Rodolfo foi corajoso de entrar. Ele voltou dizendo que é muito, muito sinistro. Estreito, pequeno, sem as paredes trabalhadas das tumbas nos Vales dos Reis... Eu fiquei feliz de ter desistido. Essa foto abaixo o Rodolfo tirou dentro da pirâmide.

No meio tempo que estava esperando o Rodolfo, tive meu pico de stress com os egípcios. Um moleque estava vendendo água e coca-cola. Depois da tradicional troca de ofertas e "No, thanks" ele perguntou se eu trocaria uma moeda de 2 euros em dinheiro egípcio. Eu disse que podia tentar, quando meu amigo voltasse. Ele então abriu uma coca cola e me deu. Eu disse que não queria, e ele falou "Você troca a moeda pra mim e pode ficar com a coca-cola de graça". A idiota aqui que lhes escreve acreditou. O Rodolfo voltou e trocou o dinheiro, depois do que o moleque cobrou o valor da coca-cola sim. Eu fiquei muito P da vida. Lembro de ter usado uma certa expressão com o moleque que é melhor não escrever aqui. Eu fiquei tão P que o Rodolfo até parou de me zoar (acho que minha expressão não estava muito para brincadeiras).
E então fomos ver a Esfinge.



As pirâmides de Giza e a Esfinge, pra quem não sabe, ficam praticamente dentro de Cairo. Eu confesso que pra mim isso fez perder um pouco a graça. Além do que, eu já tinha visto coisas tão maravilhosas ao longo da semana, que as Pirâmides não me impressionaram tanto assim. Talvez devesse ter ido vê-las logo no começo... O Rodolfo discorda, ele gostou mais do que eu das pirâmides. Eu prefiro os templos.
Terminamos nossa visita a Cairo visitando a "25 de março" deles. Taí, se tem algo que Cairo tem melhor do que São Paulo é esse mercado, o Khan el Khalili. A maioria (mas não tudo) do que é vendido lá são souvenirs para turistas, e bugigangas diversas. Eu achei o mercado bonito e colorido, se estendendo entre as ruas apertadas de construções antigas. Mas não tiramos nenhuma foto (pelo mesmo motivo que não sou doida o suficiente pra ir com uma câmera digital de 300 euros na 25 de março). O Rodolfo até negociou (e com talento) o preço das canecas que queríamos comprar! Ele parecia sinceramente ofendido com o preço pedido pelo vendedor. O preço caiu de 50 para 35 libras egípcias pelas duas canecas. Fiquei orgulhosa do meu amigo, eu não tenho tino pra barganhar não...
Conversamos um pouco mais com o guia, comemos alguma coisa, e pegamos o trem noturno de volta para Luxor.
Oitavo e último dia, 12 de Abril, Luxor:E então tínhamos algumas horas antes de pegar o vôo de volta pra Munique. Fomos gastar dinheiro com souvenirs e deixar o tempo passar. Nos divertimos muito durante a viagem, mesmo com as coisas irritantes, e vimos coisas maravilhosas. No último dia estávamos loucos de vontade de voltar para a "civilização" e deixar pra trás os egípcios e a sujeira, mas... parte de nós também estava triste de estar indo embora. E continuamos falando que ficamos com vontade de voltar pra esse país peculiar, em particular para encarar um safari no deserto por 2 semanas com um guia beduíno. Acho que minha história com o Egito ainda não acabou...
E do avião eu disse 'Até a próxima', sileciosamente...

Enfim... só pra constar, os dois lugares que me marcaram mais profundamente foram os Templos de Karnak, e o Deserto. Gosto de pensar que vou rever esses lugares ainda.
E se vocês quiserem ver, o álbum completo das fotos está em
http://picasaweb.google.com/paulartcoelho/EgyptAug07
Com carinho,
Paula