Terça-feira, 8 de Abril de 2008

Sobre 3 ídolos meus

Dança é uma parte tão importante e essencial do meu ser, que dizer que "dança é um de meus hobbies" é um understatement. Não pense grande coisa de mim não, não sou nenhuma prima-ballerina. Meu en-dehors (turn-out) é medíocre, não estico o joelho direito, se não presto atenção tenho a tendência a ficar balançando os braços sem rumo, olho demais pro chão e sou um pouquinho encurvada (anos e anos trabalhando horas e horas em frente ao computador... argh...). Mas dançar é o meu porto seguro, o momento de me encontrar comigo mesma, minha meditação, minha válvula de escape, meu presente a mim mesma. When I dance, I find myself.

Três professores foram peças chave na formação da bailarina, e da pessoa, que eu sou hoje, e gostaria de dizer umas poucas palavras sobre eles.

Salvador Sudano

Foi o professor que realmente abriu esse mundo da dança pra mim. Eu já fazia aulas há algum tempo, mas foi o Sal quem me deu espaço e oportunidades para que eu percebesse o quanto a dança me completava. Apesar de ter um jeito assim... como posso dizer... meio "general" de ser :), foi quem me mostrou que dançar é pra quem tem vontade e está disposto a se dedicar. Pra ele, talento por si só não é grande coisa não, e ele sempre valorizou os alunos que tinham vontade mesmo que não tivessem talento, sobre os talentosos natos que eram preguiçosos e/ou confiantes. Isso pode soar pouca coisa, principalmente para as meninas que nascem com corpo perfeito para serem bailarinas, mas para nós meros mortais amantes amadores da dança, o Salvador é um presente sem tamanho, é a certeza de poder aprender e curtir, de receber atenção sincera, e de ganhar o direito de estar na frente do palco por merecimento de esforço. Ele dá aulas em São Paulo, e é o coreógrafo-diretor do grupo de dança amador Emy32, do qual eu participo quando estou em casa. Ele aceita no grupo de dança todo mundo que queira dançar, sem exceção. As únicas exigências dele são: fazer aula regularmente, e ter vontade de participar (o que as vezes quer dizer "perder" horas do final de semana pra ficar ensaiando, passar o sábado inteiro no teatro em dia de competição, e etc...).

De quebra, eu ainda o acho o melhor coreógrafo de contemporâneo que conheci pessoalmente, e pra ser sincera, um dos melhores coreógrafos de contemporâneo, ponto :-P.

Essa é uma foto da primeira coreografia da Emy32, "Coisas da Vida" de 2003.

From On the stage


E pus o vídeo de duas coreografias aqui, as coreografias de grupo de 2005 e 2006, "Orgulho de Ser" e "Em Busca de uma Saída".

http://youtube.com/watch?v=GvCx33EVAzM

http://youtube.com/watch?v=ou8s7ZBKvqY

Aprecia a coreografia, e dá um desconto pras deficiências dos bailarinos ok? :) Como disse, somos um grupo amador, nenhuma pretensão de nos comparar a bailarinos profissionais. Mas ainda acho a composição coreográfica incrível...

Há 7 anos atrás (nossa o tempo passa!), o Salvador me deu a chance de dançar um pas de deux com ele (que hoje quando eu vejo no vídeo tenho vontade de morrer dos meus defeitos técnicos, e ele mesmo assim me pos no palco!), e em 2004 ele montou pra mim meu primeiro solo, "Morrigan", que dancei até o ano passado.

From On the stage

http://youtube.com/watch?v=efKBKY9hM1g

Ele é o doido que deixa que eu aprenda um coreografia em 4 dias pra subir no palco no espetáculo de final de ano. Não só aceita mas incentiva, vê se pode? :)

Nicola Carofiglio
Italiano que dava aulas de contemporâneo em Munich até 2004. Acho que depois ele foi para Portugal, mas as vezes voltava a Munique para workshops. Eu tive o prazer de fazer suas aulas por 3 meses, antes que ele se mudasse. Ele dava aulas em alemão, mas com toda paciência do mundo traduzia quase tudo pra mim em inglês.

Um grande amigo André Waelkens, meu irmão de alma, mora a 3 minutos da escola de dança que eu frequentava em Munique. Quando eu morava lá eu saia das aulas e ia pra casa do André comer nodles ou salsicha com queijo, e quando contava das aulas de dança eu me referia ao Nicola como o professor 'Mente e corpo, gafanhoto'. Foi o Nicola quem me ensinou que dançar é uma experiência de fusão de mente e corpo. Tecnicamente, foi meu primeiro contato com a técnica de "imagery" (mesmo que ele nunca tenha usado esse nome em aula, não que eu me lembre), e ele incentivava a consciência corporal como parte importante, senão indispensável, da dança.

Mais importante ainda, e tão precioso pra mim, foi durante as aulas dele que eu descobri que a forma como eu lidava com a minha vida se refletia na dança. E que a forma mais aberta e espontânea com que eu dançava, eu podia também levar pra fora da sala de aula. Eu podia dançar a minha vida. Uma amiga minha linda, a Adriana Fernandes, me escreveu uma vez um carta em sintonia com o que aprendi com o Nicola. Na carta ela me dizia para "fazer da minha vida a minha melhor apresentação". Ela profeticamente me escreveu essas palavras semanas antes de eu encontrar o Nicola, e de eu decidir passar um tempo no exterior, mudando radicalmente todos os planos que eu tinha feito para minha vida até então.

Lembro do Nicola dizendo que só aprendemos a fazer um movimento ou um passo de dança quando descobrimos a NOSSA forma de realizar o movimento, a forma que nos faz sentir confortáveis realizando o movimento. E lembro de lhe dizer que eu estava encantada com a aula dele, e dele me responder que o que me encantava eram as coisas que eu estava descobrindo dentro de mim mesma, que eu estava trazendo pra fora durante a aula.

Nunzio Lombardo

Italiano, fez carreira em Londres antes de se mudar para Munique, onde o conheci (www.nunzio.net). Durante meus almoços com o André, eu me referia ao Nunzio como o professor 'paz e amor'. Em um primeiro momento eu me recenti um pouco dele dele porque ele foi quem substituiu o Nicola quando este foi embora (infantil, eu sei). Mesmo assim fui fazer umas aulas e deuses... no Nunzio eu encontrei o meu estilo! Pra mim, é a aula de jazz perfeita. A aula que eu sempre queria ir, a aula que me aceitava nos dias bons e ruins. Nos dias ruins, a aula me fazia sentia melhor. Nos dias bons, eu podia voar. Ele trabalha tudo, relaxamento, consciência corporal, técnica, expressividade, dança na sua mais completa expressão. Nunca antes havia me sentindo tão completa e tão feliz dançando, mesmo com meu joelhos dobrados e piruetas medíocres. Ele é uma pessoa de aceitação incrível. Um jeito de corrigir sem nunca fazer críticas. Um cuidado, uma atenção, uma honestidade e sensibilidade a cada um dos alunos que é tocante.

Nessa época eu senti vontade de realizar minha primeira experiência coreográfica. Pedi ajuda pro Salvador, e me baseando em rotinas do Nunzio nós montamos um jazz onde eu danço um rock, "Por um Fio". Sempre quis dançar um rock!

From On the stage


http://youtube.com/watch?v=LYmRt78I6hc

No ano passado eu trouxe uma coreografia de aula do Nunzio pro Brasil e mostrei pro Salvador. Nós a estendemos, e a coreografia "Aprendendo a Voar" foi dançada várias vezes em campeonato pelo Sal e pela Mônica (eu participei de apenas 3 vezes). Na aula do Nunzio, eu aprendi a voar.

http://youtube.com/watch?v=fMPiXYjf1yc

Conhecer o Nunzio foi o que me convenceu de que, um dia, eu vou dar aulas de dança. Falei dessa vontade com o Salvador que me apoiou na hora! Ele vai me dar espaço pra que quando eu volte pra casa, eu dê aulas de jazz. E assim volto ao meu primeiro mentor, fechando o círculo.


Não tenho pretensão de ser nem de longe o que cada um desses três professores maravilhosos são, mas percebi que eu precisava por pra fora e passar para outras pessoas, ainda que um pedacinho pequeno das coisas que aprendi com eles.

Sábado, 8 de Março de 2008

Pela valorização da mulher brasileira !

Hoje é o dia internacional da mulher.

Quando a Lys primeiro me falou da idéia da blogagem coletiva pra hoje, eu na hora pensei "Puxa que idéia ótima, estou dentro!". No momento seguinte, me veio um vazio de "afinal de contas, o que posso falar?". Há tanto que pode ser dito ou contado de nossas experiências, brasileiras vivendo no exterior, que é dificil organizar as ideias...

Então escolhi escrever sobre 3 coisas: qual é minha experiência como brasileira vivendo aqui fora do Brasil, e da minha visão sobre a participação das mulheres brasileiras na Astronomia (minha profissão) e na dança (minha paixão).

"De onde você é? Do Brasil..."
Eu já tenho até receio dessa pergunta "De onde você é?", porque se por um lado eu tenho orgulho de ser brasileira, por outro eu já cansei dos idiotas que começam a sacudir os quadris numa imitação barata de samba, e rápido começam a fazer alusão a mulheres peladas e fáceis. Infelizmente, essa é a imagem mais comum que os estrangeiros tem de nós.

Minha idéia pra esse blog não é contar minhas experiência nesse sentido não, mas quero deixar registrado que isso acontece sim, e muito. Por um lado fico P da vida dos estrangeiros terem uma imagem tão estereotipada, de baixo nível e injusta de nós. Por outro, lembro de ver na TV brasileira mulheres se mostrando com roupas e atitudes altamente vulgares (como naqueles funks horríveis e cia), e pior, ainda se achando o máximo! Nessas horas fico muito mais revoltada com essas mulheres do que com os estrangeiros, e por fração de segundo me pergunto se essa imagem da mulher brasileira ser "vagabunda" não é justificada... Mas não, não é. Mulheres vulgares e baratas tem em qualquer parte do mundo.

Me preocupa muito a visibilidade que a vulgaridade recebe na mídia brasileira, e que valores isso está passando para nossas meninas. Se não começarmos a mudar isso aí dentro, vai ficar difícil melhorar a imagem que é vendida aqui fora né?

E verdade seja dita, a mulher brasileira "normal", "típica", é uma mulher bonita, carinhosa, aberta, e com uma expressão corporal que chama a atenção mesmo aqui fora. Nós, brasileiros e brasileiras, nos movemos com uma graça e uma fluidez peculiar. Essa sensualidade nata, da qual tenho orgulho, é erroneamente muitas vezes interpretada como tendo uma conotação sexual. Acho graça, pois ao conversar com amigas tanto brasileiras e européias, me dei conta que no fundo as brasileiras em geral são muito mais conservadoras do que as européias: não transamos no primeiro encontro, não ficamos a vontade trocando de roupa em vestiários mixtos (como algumas escolas de dança que frequento aqui em Paris), não vamos à sauna mixta com todo mundo pelado (comum em Munique), temos um sentido de fidelidade conjugal muito mais forte... Somos sensuais sim, mas ao mesmo tempo somos mais recatadas. E temos um jeito de sermos carinhosas e abraçarmos com facilidade nossos amigos que não tem nada de conotação sexual. Nada a ver com a imagem de sexo barato que é vendida!
Brasileiras & Astronomia
Sinto orgulho quando lembro que o percentual de mulheres dentre os astronômos do Instituto em São Paulo onde fiz o meu Doutorado, é muito, muito maior do que o percentual aqui na Europa ou nos EUA. Na Europa, Astronomia ainda é dominada por homens. No Brasil, que eu saiba estamos perto da igualdade percentual (sorry, não me lembro dos números mais recentes). São VÁRIOS os nomes de astrônomas brasileiras reconhecidas internacionalmente. Eu mesma tive o prazer de fazer o meu doutorado com uma delas, a Profa. Dra. Beatriz Barbuy. E mesmo morando fora do Brasil, nossas astrônomas continuam a brilhar, como a Dudu (ou mais apropriadamente a Dr. Duilia de Mello, ou Mulher das Estrelas :)).

Porque estou contando isso?

Pra dizer que a mulher brasileira é, além de bonita e charmosa, inteligente e competente. Ou alguém aí acha que trabalhar com ciência é fácil?
Brasileiras & Dança
Eu amo dança acadêmica. "Dança acadêmica" eu quero dizer dança que é pra ser apresentada no palco, então estilos como ballet clássico, ballet moderno, dança contemporânea, jazz... Vivendo esse tempo aqui na Europa, onde existe um respeito e um espaço para a cultura que infelizmente não temos ainda no Brasil, eu volta e meia estou procurando espetáculos de dança para assistir. E para minha grande alegria, vários são os representantes do Brasil. Gostaria de citar o nome de duas bailarinas brasileiras das quais nunca tinha ouvida falar no Brasil:
a Mirila Greicy da Cia. Membros e a
Sandra Mara Gabriel do Bale de Rua (nós brasileiros temos um talento incrível para combinar dança de rua com técnica e movimentos de contemporâneo, eu fiquei impressionada com esses dois grupos). E olha que nem estou mencionando as diversas bailarinas do Grupo Corpo, grupo brasileiro de contemporâneo altamente respeitado aqui na Europa, que eu assisti quando passaram por Paris em 2007.

Não conheço a Mirila e a Sandra pessoalmente, mas as vi se apresentando e quero dizer que elas são mulheres brasileiras, dançarinas, lindas, talentosas, que estão mostrando fora do Brasil do que as brasileiras são REALMENTE capazes de DANÇAR. Sem ter que mostrar a bunda ou o peito ou rebolar em cima de uma garrafa! Com uma mistura linda de fluidez e energia, elas são ao mesmo tempo fortes e femininas, provando que esses dois conceitos não são opostos. Talvez se algumas das dançarinas da boquinha da garrafa vessem o respeito e admiração que essas lindas recebem aqui fora, elas parassem para repensar seus valores e suas imagens.
Tudo isso pra dizer que...
Tem sim muita mulher brasileira que não se dá ao respeito, como em qualquer outra parte do mundo. Mas há ainda MAIS mulheres brasileiras que são bonitas, charmosas, inteligentes, competentes, trabalhadoras, femininas, fortes e talentosas.

Essa é a imagem da mulher brasileira que eu sonho que seja ensinada e valorizada para nossas crianças! E é a imagem que eu quero ver projetada não só no exterior, como dentro de nosso pais.



Sábado, 13 de Outubro de 2007

O lado escuro da cidade luz

Esse post é um desabafo público, sobre os primeiros meses de uma brasileira tentando se adaptar a viver em Paris...

O lado escuro
Em cheguei em Paris no final de junho para morar por dois anos. Nunca fui particularmente entusiasmada com Paris, mas tantas pessoas são, entre amigos, família e colegas de trabalho, que acabei me entusiasmando também com a idéia de vir para cá. Só que até o momento, a melhor coisa que posso dizer é que Paris é uma cidade melhor para se visitar do que para se morar. Isso é uma combinação da burocracia excessiva, da ineficiência administrativa do Instituto onde trabalho, de franceses rudes por todos os lados (não são todos, não posso generalizar, mas falta de educação é bem comum por aqui), e de franceses que estão convencidos de que Paris é a cidade mais linda e perfeita do mundo e que me acham alienígena por não achar o mesmo. Não quero contar toda a novela, mas tive vontade de listar os acontecimentos que mais contrubuíram pro meu estado de humor atual. Fica meio jogado, cada item sem mais explicações, mas acho que ilustra o que estou tentando dizer...
  • eu já passei em três médicos clínicos gerais para "avaliação", uma vez para o CNRS (orgão que gerencia o instuto onde trabalho), uma vez para a administração e uma vez para a Prefeitura.
  • já tive que me deslocar três vezes até a Delegação Regional do CNRs nos subúrbios de Paris. Uma para a consulta médica, a segunda para assinar os documentos do pedido de permissão de residência (Titre de Sejour). A terceira porque da segunda vez eles esqueceram de pegar a minha assinatura em um dos formulários.
  • no total, demorou semanas para minha conta corrente no banco ser aberta.
  • o instituto disse que pagaria algumas semanas de curso de francês para mim, e me inscrevi para quatro semanas na Aliança Francesa. Dois dias antes do curso começar me disseram que seria melhor que eu pagasse as duas primeiras semanas com o meu grant (uma reserva de recursos principalmente para viagens de trabalho) e as outras duas eles pagariam. E dois dias antes da terceira semana começar, me avisaram que não tinham mais dinheiro pra me pagar pelo resto do ano.
  • as informações nunca são precisas, ou sequer completas, quando algo administrativo tem que ser feito. Várias iterações são necessárias até que se consiga a informação correta, as listas de documentos são imprecisas...
  • emails que eu mandei para a Embaixada Francesa em São Paulo foram ignoradas. Uma secretária escreveu novamente (em francês) perguntando sobre minhas dúvida e recebeu a resposta de que eu devia escrever diretamente. Eu escrevi de novo para a Embaixada, com um forward da mensagem para a secretária. Nunca me responderam.
  • com minha dificuldade de francês, uma vez eu liguei para a embaixada da França em São Paulo, e pedi ajuda para esclarecer uma questão sobre o Visa de Retour. Expliquei que liguei para poder conversar em português, já que estava tendo dificuldades com o francês ainda. O que eu ouvi de resposta foi "Bom, isso é problema seu."
  • meu cartão do seguro saúde ainda não chegou (3 meses que estou aqui!).
  • perdi a conta das pessoas para as quais precisei pedir informações que torceram o nariz pro meu françês pobre, mesmo em lojas grandes e "internacionais" como a FNAC.
  • no instituto, perguntei como era o procedimento para comprar um livro pelo meu grant. Fizeram o pedido de compra no meu nome sem me informar de custos e prazos, ou sequer aguardar pela minha autorização. A encomenda deles é mais cara e leva mais tempo do que seu eu tivesse comprado o livro pela internet.
  • demorou três meses para eu fosse cadastrada no banco de dados do FRAM, que é o setor responsável por compra de passagens aéreas para viagens de trabalho. Mas estou cadastrada em outros dois bancos de dados com informações conflitantes. Nem lembro mais a que se referem esses outros dois bancos de dados...
  • estou sem receber os meus holleriths porque alguém cadastrou meu endereço errado no banco de dados. Não tenho idéia qual.
  • pedi que fosse comprada uma passagem aérea para uma conferência. Fizeram a reserva da passagem e me mandaram para autorizar. Autorizei. Duas semanas depois eu perguntei porque não tinha recebido o eTicket ainda. "Você não recebeu ainda? Tem certeza? Ah... vou ter que verificar". A compra não tinha sido feita e a reserva que eu autorizei tinha sido perdida. Aí compraram as pressas uma nova passagem, mas me colocaram num vôo cerca de 3 horas mais cedo do que eu havia pedido, e portanto terei que ficar quase 6 horas esperando na conexão para o segundo vôo. E dessa vez compraram sem me pedir confirmação/autorização da reserva.
  • demorou três meses pra chegar a minha permissão de residência. Que só é válida por um ano.
  • e o metro é imundo. Fala sério...
Revejo a lista acima e penso "Céus, só estou aqui há 3 meses...". Achei (e comprei) um magneto em New York que está virando meu lema para quando estou em Paris: "If you are going through hell, keep going...". Pelo menos me faz rir quando eu leio...

O lado cinza
Também estou um tanto decepcionada com as aulas de dança que encontrei por aqui. Estou frequentando um estúdio que é pelo menos 3 vezes maior (em número de salas) do que eu costumava ir em Munique. Só que não há uma única aula falada em inglês, e 80% dos professores são franceses. Em Munique, uma cidade alemã consideravelmente menor, e imensamente menos prestigiada que Paris, havia pelo menos uma aula em inglês para cada estilo, e pelo menos metade dos professores eram italianos, americanos, franceses, brasileiros... o que aumentava imensamente a diversidade de estilos e influências, e enriquecia muito o quadro de aulas! Penso que mesmo quando o meu francês estiver melhor (e eu não sentir mais falta de uma aula falada em inglês), vou ainda sentir falta da diversidade de influências e estilos. De fato, eu fazia aula de contemporâneo dada em alemão mesmo, e não falando quase nada dessa língua, porque o professor (italiano) tinha um estilo que eu amava. Mas ainda estou procurando por aulas mais diversificadas, afinal não tive muito tempo para verificar todas as opções dessa cidade grande. Dedos cruzados...

O lado que, pra mim, é brilhante de fato
Ok. Tem uma coisa em Paris pelo qual eu estou apaixonada. Estou maravilhada pela vida cultural da cidade. As opções são infinitas e os preços são acessíveis, em uma combinação que me pareceu superior a qualquer outra cidade que eu já tenha visitado (mesmo em comparação à New York e Londres). Nesses três meses de inferno, vivi alguns momentos de paraíso: o Ballet Inglês apresentando o Lago dos Cisnes em um palco montado sobre uma das fontes dos Jardins de Versailles; o Ballet de Cuba dançando Dom Quixote; apresentação ao ar livre gratuita da Sinfônica de Paris; apresentação ao ar livre gratuita do filme "Le festin de Babette"; apresentação ao ar livre gratuita de dois grupos de dança de rua, um francês e um brasileiro (a Cia Membros, eles são fantásticos! www.ciemh2.com.br/membros); e a apresentação do Grupo Corpo, um dos melhores grupos de dança contemporânea do Brasil. E nem vou falar dos museus.

Enfim...
Meu chefe diz que eu só estou mal-acostumada por causa de Munique, onde o sistema é muito mais eficiente e organizado, e onde as pessoas na maioria absoluta não se importam de falar em inglês com um estrangeiro (não raro eles falavam inglês melhor do que eu). Também confesso que no começo eu estava curtindo a idéia de aprender o francês, e ter um pouco de fluência em outra língua estrangeira além do inglês. Mas a pressão é tão grande do sistema para que você se enquadre e a reação tão estranha àqueles que não falam, que ultimamente aprender francês não é mais prazer e sim obrigação. Algo tipo: "Tá bom, eu vou aprender a P&^*@$# da língua já que é TÃO importante". E eu sei que a má experiência desse primeiros meses fez nascer em mim uma espécie de filtro cinza, que se eu não quebrar vai tornar ainda mais difícil a minha adaptação. Ouvi de várias pessoas, colegas ou amigos que também são estrangeiros na Cidade Luz, que "os primeiros meses foram difíceis, mas depois aprendi a gostar". Espero que aconteça comigo também. E se não, em dois anos vou embora, e estarei muito mais "culta" do que quando eu cheguei...

Segunda-feira, 16 de Abril de 2007

Um comentário rápido

Eu disse pra Paula que ia editar a maior parte do que ela escreveu, mas claro que eu não vou fazer isso. Eu só estava sendo chato como sempre, não consigo evitar, é mais forte do que eu. Na verdade acho que o que ela escreveu ficou bem legal, não tenho muito o que acrescentar. Eu gostei muito da viagem, apesar dos momentos de stress, mas como eu disse pra ela são essas coisas que rendem histórias pra contar. Fico contente também que a Paula tenha gostado, afinal se ela não tivesse seria culpa minha (viu, disse que ia parar de botar a culpa em você). Explico, a idéia inicial era fazer um cruzeiro pelo Nilo, mas depois descobrimos que isso ficaria muito caro. Claro que a maior restrição de orçamento era minha, o relés aluno de doutorado. Apesar da Paula dizer o contrário, sei que ela poderia pagar o cruzeiro. No fim acabamos indo na cara e na coragem, sem muito planejamento mas com vontade de ver o máximo possível no pouco tempo que tínhamos. E o pior é que acabou dando certo... O resto é história, que a Paula conta aí em baixo. Agora que o Egito já foi só resta a China, a Grécia, Roma, as regiões da Babilônia e Mesopotâmia, a Escócia, a Rússia...

Rodolfo

Sexta-feira, 13 de Abril de 2007

Egito

Desde criança eu queria conhecer o Egito. Semana passada eu consegui realizar esse sonho, e foi uma experiência marcante. Eu não imaginava a existência de um país onde meus sentimentos pudessem mudar tão rápido, de maravilhada para realmente irritada, para profundamente emocionada, e depois para frustada, e tantas vezes num único dia. Achei que valia a pena compartilhar essa experiência com vocês, entao aí vai.

Os monumentos, a religião e a história do Egito Antigo me fascinam. E ir pro Egito a partir da Europa nem é tão caro assim. Só que sendo um país muçulmano já tinham me avisado que não era uma boa uma mulher viajar pro Egito sozinha, então a idéia ficou de lado até dezembro de 2006, quando durante um jantar de conferência descobri que o Rodolfo (amigo meu também astrônomo) era doido pra ir pro Egito, e estava morando aqui em Munique também. E assim começou!

Eu queria ir por volta do feriado da Páscoa, e começamos a planejar... só pra descobrir que não conseguíamos colocar tudo o que queríamos ver, no tempo que tínhamos disponível, pelo preço que estávamos dispostos a pagar. Acabamos comprando um pacote de passagem aérea e hotel pra uma semana em Luxor, e chegando lá iríamos decidir como ir visitar todos os lugares que queríamos.

O nosso mais importante companheiro de viagem foi o livro aí abaixo, que a Glória (grande amiga minha espanhola) sugeriu que a gente comprasse. Lá pelo final da viagem já estávamos chamando-o de "O Livro Sagrado". Vocês vão entender porque...



E aqui vai um mapa simplificado do Egito, pra vocês acompanharem nossas andanças (de http://www.egyptmyway.com/maps/egypt_map.html). Grifei em vermelho as cidades onde estivemos.




Primeiro dia, 5 de abril, Luxor:

Chegamos em Luxor no final da tarde. Muito quente. O hotel não era uma maravilha mas era OK. Fomos procurar um supermercado para comprar água, chocolate essas coisas, e esse foi o primeiro "momento stress" da viagem.
Momento stress: fomos em direção ao centro da cidade, que era muito feia e suja, inclusive o mercado. Me senti numa favela pra ser sincera. Nunca andei dentro de uma favela, mas o Rodolfo confirmou que parecia uma favela do Rio de Janeiro.
Depois de comprar nossas coisas e ficarmos com a sensação de termos sido roubados (quase nada lá tem preço, eles supõem que você sabe qual o preço das coisas e barganhar por um preço mais baixo é regra, não exceção), fomos em direção ao Nilo. Aí começou o segundo momento stress. Você não consegue andar 10 metros sem ter alguém oferecendo taxi, passeio de felluca (pequeno barco pra velejar no Nilo), passeio de charrete, echarpes de algodão... qualquer coisa. E eles são insistentes! Quase agressivos, tentam te parar, insistem, perguntam quanto você quer pagar, baixam o preço que pediram antes. E quase nunca um simples "No, thanks" é suficiente. Você basicamente tem que sair andando e ignorar (e eles muitas vezes te seguem pela rua por um tempo). Depois de uns 10 minutos chegamos a margem leste do Nilo, e tivemos nossa recompensa.
Momento deslumbre: Estávamos andando ao longo do Nilo !
E esse foi o por-do-Sol que assistimos enquanto caminhávamos...





Jantamos num restaurante recomendado pelo Lonely Planet, e desmaiamos de cansaço. O dia seguinte seria cheio.

Segundo dia, 6 de abril, Luxor:

Acordamos cedo e começamos o dia passando numa agência de turismo ali perto, pra organizar as viagens que queríamos fora de Luxor, e em seguida pegamos a balsa pra atravessar para a margem oeste do Nilo.





Queríamos chegar ao Vale dos Reis, e foi incrivelmente estressante tentar irmos por conta própria, com dezenas de taxistas egípcios tentando nos convencer a fechar negócio com eles. Uma vez o Rodolfo, pra tentar despistar, respondeu que não queríamos taxi pois iríamos de bicicleta, e sem menos o egípcio tirou do bolso o cartão de "rent a bike" e nos ofereceu as biblicletas! Argh! E o livro dizia que os egípcios em geral eram muito amigáveis, a gente não entendia como!

Com algum stress chegamos ao Vale dos Reis, onde vários faraós foram enterrados com seus tesouros (mas os tesouros foram levados para museus). Entramos em três das 62 tumbas (Tuthmosis III, Ramses I, Merneptah), que são bastante impressionantes apesar de um pouco claustrofóbicas. As paredes são inteiramente cobertas de hieroglifos, as vezes ainda coloridos, outras vezes em relevo... mas eles não permitem fotos. Então só posso oferecer a foto da montanha em forma de pirâmide sob a qual os túmulos foram escavados (Al-Qurn).




De lá fomos ver onde os Nobres (não mais os faraós) eram enterrados. Essas tumbas ficam espalhadas bem no meio de um vilarejo, muito pobre.



Vimos as tumbas de Menna, Nakht, Sennofer, Rekhmire, que em si não são tão impressionantes quanto as dos faraós, mas o legal é que as pinturas nas paredes são bem melhor preservadas. E lá pude tirar algumas fotos (dando uma gorjeta pro egípcio que fica cuidando, claro). Mas sem flash! Pra não danificar os desenhos :)).







E de lá terminamos nossa visita à Margem Ocidental visitando o Templo de Ramesseum, um dos templos construídos por Ramsés II.



Olha só os detalhes, as vezes dá pra ver as cores originais...



ou as pichações deixadas por gregos e romanos antigos.



Ainda tinha muita coisa pra ver desse lado do Nilo, mas tivemos que fazer escolhas já que o tempo era curto. Então pegamos a balsa pra Margem Oriental novamente, e fomos até o impressionante complexo dos Templos de Karnak.



Mais que um simples templo, Karnak cobre uma área de 1.5 km por 800m e contém santuários, quiosques, pilares e obeliscos dedicados aos deuses de Tebas e à glória dos faraós.


Momento deslumbre: Aqui sim, a gente ficou com muita cara de bobo! Cara de bobo, sabe? Olhos um tanto abertos demais, sorriso besta no rosto, sem falar nada... A gente sentou logo após a entrada, cansados do longo dia, mas totalmente deslumbrados com esse lugar. É simplesmente mágico! Nós andávamos pelas colunas e ficamos tentando imaginar esse lugar "com vida", com as cores originais e os antigos egípcios louvando, trabalhando, passeando...











Tinha até gente "Walking like an Egyptian", olha só...





Por fim andamos até o centro da cidade (a favela, lembram?) pra comprar as passagens de trem pro dia seguinte.

Terceiro dia, 7 de abril, Aswan:

Terceiro dia acordamos cedo pra pegar o trem para Aswan.
Momento stress: O trem atrasou quase uma hora. E durante todo esse tempo eu não conseguia tirar os olhos da menininha cheia de moscas no rosto, que a mãe não se dava ao trabalho de limpar.
Com isso posso comentar de outra coisa desagradável do povo egípcio de hoje: noção praticamente inexistente de higiene. Jogam lixo na rua mais do que os brasileiros (o Rodolfo acha que tanto quanto nós brasileiros), crianças sujas (mães também sujas), poeira e moscas por todo lugar...

Umas três horas de trem e chegamos à Aswan, que é uma cidade muito mais agradável que Luxor. Ainda tem egípcio tentando te vender coisas, mas bem menos... Procuramos logo de cara o hotel recomendado pelo Lonely Planet. Não tínhamos reserva, mas deu tudo certo. E o hotel era muito melhor do que o de Luxor, com pessoas muito prestativas na recepção. Deu até pra descansar a beira da piscina por um tempo. Santo livro!





Saímos pra procurar uma agência de turismo pra comprar um pacote pra ir para Abu Simbel, ainda mais ao Sul, e sacar dinheiro. Mas estava tão quente, mas tão quente, que em menos de 10 minutos pedi pra voltarmos pro hotel e fecharmos o pacote de Abu Simbel oferecido pelo hotel (que era até um bom preço!) e sairíamos a noite pra sacar dinheiro.

Depois de fecharmos o pacote é que li no livro que eles recomendam fortemente NÃO comprar pacotes pra Abu Simbel em hotéis, pois geralmente te põem numa van super lotada, as vezes sem ar-condicionado (ops...). Além disso, quando saímos pra sacar dinheiro me toquei que nem eu nem o Rodolfo tínhamos a senha pra sacar dinheiro com o cartão de crédito (apesar dele insistir sempre que tudo é minha culpa!). É que estamos acostumados a sacar dinheiro com o cartão da conta corrente, em qualque país na Europa. Mas afinal, Egito não é Europa, né?

Enfim, fomos à noite ao Museu Núbio, onde aprendemos um pouco sobre esse povo negro que vive ao sul do Egito (muitas vezes envolvido em guerras com Egito Antigo, como aliados, inimigos, conquistados ou conquistadores).







Ao voltarmos pro hotel descobrimos que não poderíamos pagar o hotel com cartão de crédito. Pânico! Tive que escrever um email as pressas pro meu brodi André, em Munique, e pedir pra ele passar na minha casa pra pegar a senha do cartão de crédito. Estamos devendo uma pra ele agora (e o Rodolfo me enche o saco porque agora o André pode ficar zoando com a gente).

Quarto dia, 8 de abril, Abu Simbel, Aswan, Luxor:

Acordamos nada menos do que as 3 da manha (!!!!) pra pegar a van pra Abu Simbel. E a #^%@$ do livro estava certo sobre a qualidade das vans organizadas por hotéis.
Momento deslumbre: Mas valeu a pena, porque os Templos de Abu Simbel são... Abu Simbel. :)







A uma da tarde estávamos de volta à Aswan, conseguimos pagar o hotel com umas notas de euro perdidas nas nossas carteiras, e passamos um par de horas almoçando num restaurante à margem do Nilo que é um charme!



O dia foi muito legal. Mas no fim da tarde tívemos um egípcio de jeito furtivo nos seguindo pelas ruas por um bom tempo até o despistarmos. Não sabemos o que era, mas nossos instintos de brasileiros nos diziam que coisa boa não era...

E voltamos de trem para Luxor. O esquisito é que fomos da estação de trem de Luxor até o hotel sem NINGUÉM nos oferecer nada, serviço ou produto (e são quase 15 minutos andando!). A gente não entendeu nada, achamos que tínhamos ido parar no lugar errado, que não era Luxor não...

Quinto dia, 9 de Abril: Deserto Ocidental, Oásis Al-Kharga.

Fechamos um pacote com uma agência de turismo para passarmos um dia e meio no deserto. Um motorista nos levou até o maior oásis do Egito, Al-Kharga. Grande mesmo, nem se parece com a idéia de oásis que a gente imagina de filmes, é uma pequena cidade construída no meio do deserto. Chegando lá encontramos com nosso guia, o Mohamed, um cara falante que levou a esposa (ou noiva? não entendi direito) pra passar o dia com a gente. O nome dela é complicado, só me lembro que em árabe significa 'Sorriso'.



Eles nos levaram para ver a Necrópole de Al-Bagawat, com várias capelas cristãs cópticas do século 3.





Era dia de festa (uma mistura peculiar da festa de Primavera da época dos faraós e os mesmos ovos pintados que temos na nossa festa de Páscoa), e eles nos levaram pra um almoço típico (come-se com as mãos). Os beduínos são bem mais amigáveis que os egípcios das cidades. Curiosos sobre nós, mas sem serem invasivos... O Mohamed nos levou para conhecer a família dele, que estava como que fazendo um picnic embaixo de palmeiras. Eles nos convidaram para chá, perguntaram de onde éramos, conversaram como puderam com nós (o inglês é bem ruim), as crianças nos circundaram e inventavam jeitos de se comunicar...
Momento stress: Eles foram muito legais, mas a higiene não é lá essas coisas, e o Mohamed nos ofereceu uns bolinhos de arroz que a mãe dele tinha feito. E como iríamos recusar ?!?! A gente pois aquilo na boca rezando pra não fazer mal...


Depois passeamos pelo maior vilarejo de Al-Kharga, e no fim do dia o Mohamed nos levou para o deserto. Eu estava ansiosa, mas não imaginava que o deserto pudesse ser tão magnífico! É muito difícil por em palavras, porque afinal é basicamente um monte de areia por todos os lados. Mas pensa, como explicar o que é o mar para alguém que nunca viu? O mar é 'apenas' um monte de água por todos os lados, não é?
Momento deslumbre: O deserto é uma imensidão de areia com nuances de cor e sombra que uma foto não consegue captar, ventos fortes e um horizonte sem fim que nos chama e atiça. E ainda tivemos o privilégio de assistir ao por-do-sol do alto de uma duna... Não sou poeta o suficiente pra explicar.






Depois do por-do-sol a 'Sorriso' nos deixou. Ao se despedir, ela disse que estava muito feliz de me conhecer, que queria me ver de novo, e que me amava. Não escrevi errado não, ela me disse "I love you" com todas as letras. Fiquei surpresa claro, mas também muito tocada...

Depois fomos passar a noite em um acampamento beduíno,



comemos frango feito na fogueira,



e dormimos numa tenda.





Meu Deus, que dia incrível.

Sexto dia, 10 de Abril: Deserto, de volta pra Luxor, trem para Cairo.

Acordamos e o nosso guia beduíno (o das tendas) nos levou para conhecer a "fazenda" do oásis.

O Rodolfo ficou brincando de subir em árvore com o guia,



e comemos goiaba tirada do pé !



Encontramos com o Mohamed (o mesmo do dia anterior), que nos levou para ver um templo em meio ao deserto. E de estar mais uma vez no deserto senti novamente a sensação que chamo de "alimentar a alma", e mais uma vez senti lágrimas querendo vir à tona.

Depois de um almoço improvisado e chá beduíno, nos despedimos de Mohamed. Ele deu de presente para cada um de nós um vaso de cerâmica. No carro voltando pra Luxor, o Rodolfo vira pra mim e fala algo como "Puxa eles são legais né? Sabe, eu gosto deles...". Nós começamos a rir e a xingar muito! Não é que o livro estava certo de novo ?!?! Foi aí que começamos a chamar o Lonely Planet de "O Livro Sagrado".

Chegamos em Luxor a tempo de tirar algumas fotos noturnas no Templo de Luxor. Na entrada do Templo o Rodolfo teve um treco e começou a me sacudir pelos ombros, só porque eu estava dizendo (acho que pela terceira vez) que devíamos ter trazido o livro sagrado (tínhamos esquecido no hotel). Expliquei que estava tudo bem, que era brincadeira e ele acalmou. Eu evitei mencionar o livro de novo, sabe? Mas ele falou pelo menos mais um par de vezes que devíamos mesmo ter trazido o livro pra lermos sobre as diversas partes do templo.

É muito bonito visitar o templo a noite, tem um ar mágico, misterioso, tocante...



Tarde da noite pegamos o trem noturno para Cairo. São dez horas de viagem então compramos passagem na primeira classe. Só que a "primeira classe" no Egito não passa no controle de vigilância sanitária brasileiro não...

Sétimo dia, 11 de Abril: Cairo

Chegamos de manhã ao Cairo e encontramos nosso guia. Cairo em si não me pareceu particularmente interessante, parece uma São Paulo piorada (Cairo tem 22 milhões de habitantes), digo, mais pobre e mais suja.

Fomos direto para o Museu Egípcio.



É um museu impressionante e LOTADO de gente. Entre outras preciosidades, eles tem todos os tesouros encontrados no túmulo de Tutankhamun. Pena que não podíamos tirar foto, bem que eu queria uma foto minha ao lado da máscara do faraó menino (que nem a foto do Sal "Eu e a Mona", pra quem sabe do que estou falando...). Você pode dar uma olhada nessa máscara em http://en.wikipedia.org/wiki/Tutankhamun.

Após um rápido almoço, fomos então, finalmente, ver as Pirâmides de Giza, uma das 7 maravilhas do mundo.





Queríamos entrar numa das pirâmides. Compramos o ingresso, mas eu travei na entrada do túnel. É muito claustrofóbico! Eu desisti, o Rodolfo foi corajoso de entrar. Ele voltou dizendo que é muito, muito sinistro. Estreito, pequeno, sem as paredes trabalhadas das tumbas nos Vales dos Reis... Eu fiquei feliz de ter desistido. Essa foto abaixo o Rodolfo tirou dentro da pirâmide.



No meio tempo que estava esperando o Rodolfo, tive meu pico de stress com os egípcios. Um moleque estava vendendo água e coca-cola. Depois da tradicional troca de ofertas e "No, thanks" ele perguntou se eu trocaria uma moeda de 2 euros em dinheiro egípcio. Eu disse que podia tentar, quando meu amigo voltasse. Ele então abriu uma coca cola e me deu. Eu disse que não queria, e ele falou "Você troca a moeda pra mim e pode ficar com a coca-cola de graça". A idiota aqui que lhes escreve acreditou. O Rodolfo voltou e trocou o dinheiro, depois do que o moleque cobrou o valor da coca-cola sim. Eu fiquei muito P da vida. Lembro de ter usado uma certa expressão com o moleque que é melhor não escrever aqui. Eu fiquei tão P que o Rodolfo até parou de me zoar (acho que minha expressão não estava muito para brincadeiras).

E então fomos ver a Esfinge.







As pirâmides de Giza e a Esfinge, pra quem não sabe, ficam praticamente dentro de Cairo. Eu confesso que pra mim isso fez perder um pouco a graça. Além do que, eu já tinha visto coisas tão maravilhosas ao longo da semana, que as Pirâmides não me impressionaram tanto assim. Talvez devesse ter ido vê-las logo no começo... O Rodolfo discorda, ele gostou mais do que eu das pirâmides. Eu prefiro os templos.

Terminamos nossa visita a Cairo visitando a "25 de março" deles. Taí, se tem algo que Cairo tem melhor do que São Paulo é esse mercado, o Khan el Khalili. A maioria (mas não tudo) do que é vendido lá são souvenirs para turistas, e bugigangas diversas. Eu achei o mercado bonito e colorido, se estendendo entre as ruas apertadas de construções antigas. Mas não tiramos nenhuma foto (pelo mesmo motivo que não sou doida o suficiente pra ir com uma câmera digital de 300 euros na 25 de março). O Rodolfo até negociou (e com talento) o preço das canecas que queríamos comprar! Ele parecia sinceramente ofendido com o preço pedido pelo vendedor. O preço caiu de 50 para 35 libras egípcias pelas duas canecas. Fiquei orgulhosa do meu amigo, eu não tenho tino pra barganhar não...

Conversamos um pouco mais com o guia, comemos alguma coisa, e pegamos o trem noturno de volta para Luxor.

Oitavo e último dia, 12 de Abril, Luxor:

E então tínhamos algumas horas antes de pegar o vôo de volta pra Munique. Fomos gastar dinheiro com souvenirs e deixar o tempo passar. Nos divertimos muito durante a viagem, mesmo com as coisas irritantes, e vimos coisas maravilhosas. No último dia estávamos loucos de vontade de voltar para a "civilização" e deixar pra trás os egípcios e a sujeira, mas... parte de nós também estava triste de estar indo embora. E continuamos falando que ficamos com vontade de voltar pra esse país peculiar, em particular para encarar um safari no deserto por 2 semanas com um guia beduíno. Acho que minha história com o Egito ainda não acabou...

E do avião eu disse 'Até a próxima', sileciosamente...




Enfim... só pra constar, os dois lugares que me marcaram mais profundamente foram os Templos de Karnak, e o Deserto. Gosto de pensar que vou rever esses lugares ainda.

E se vocês quiserem ver, o álbum completo das fotos está em
http://picasaweb.google.com/paulartcoelho/EgyptAug07

Com carinho,
Paula